segunda-feira, 28 de julho de 2008

ENQUANTO HÁ TEMPO...

Longe de pretender dispor da chave para explicar a péssima imagem do governo estadual de acordo com as mais recentes pesquisas de opinião, ofereço alguns elementos que podem ser úteis:
1. Falta de centralidade: Ainda é muito elevado o grau de dispersão do governo e de atomização de suas ações. O programa “Pará, terra de direitos” foi idealizado para enfrentar essa dificuldade, mas se vê enredado por problemas de gestão e por outros que mencionarei nas linhas seguintes;
2. Falta de foco: O governo ainda não tem claro o seu horizonte para o final de 2010. E se os têm, não os comunica adequadamente sequer para o conjunto do governo, quanto mais para a sociedade; e se não os comunica adequadamente, também não convence ou seduz para muito além das fronteiras do próprio governo;
3. Antecipação da agenda política: Querer mais quatro anos antes de cumprir os objetivos do mandato em curso, lembra aquela metáfora do goleiro que, ávido pela jogada seguinte, esqueceu-se de que era necessário, antes de dar seqüência ao jogo, segurar a bola com firmeza para armar o contra-ataque. Resultado: tomou um “frango”;
4. Mau uso do tempo: Boa parte do tempo, inteligência e energia está voltada para as disputas internas (no governo, no PT e nos outros partidos aliados), comprometendo o desempenho do governo, que deixa de ser o espaço de convergências para colocar-se no epicentro das crises;
5. Desvirtuamento da agenda do governo: O governo – e a própria figura da governadora – envolve-se no varejo das articulações municipais, inclusive nas disputas entre candidatos identificados com a sua base de apoio, o que aumenta o potencial gerador de crises internas e compromete a agenda governamental;
6. Instabilidade: Mesmo sem uma oposição forte na ALEPA (pelo menos até então), os objetivos do governo ficam demasiadamente à mercê das circunstâncias, dos impulsos e da intuição. As circunstâncias, os impulsos e a intuição, aliás, têm sido a tônica de decisões importantes do governo;
7. Insegurança e desconfiança: A insegurança e a desconfiança crescentes no interior do governo geram um sentimento generalizado de que, a qualquer momento, as orientações mudam, os objetivos mudam, os secretários são substituídos. E se as mudanças tornam-se tão corriqueiras, não faz sentido qualquer plano de médio ou longo prazos;
8. Distanciamento e isolamento do núcleo dirigente do governo: O núcleo dirigente do governo distancia-se cada vez mais do conjunto do governo, fruto de uma visão auto-suficiente e presunçosa de que o problema é que tem gente boicotando e querendo que o governo não funcione. O núcleo dirigente do governo tem baixa capacidade de auscultar o conjunto do governo e o seu entorno e de integrar pontos de vista, o que lhe faz recorrer à velha fórmula do autoritarismo e da cultura do medo. A mudança (mais uma) do modelo de gestão é um sintoma evidente desse enredo, como se o problema estivesse no modelo e não na cultura organizativa e no padrão da relação intra-governamental;
9. Crise existencial: Embora pareça romântico, não há mais tempo para crises existenciais (clique aqui para ler o post "ser ou não ser..."). O PT conquistou o direito de governar o Pará - pelo menos por quatro anos – e dispõe de condições favoráveis para fazer um governo transformador, sobretudo por coincidir com o segundo mandato do presidente Lula; está no comando de todos os órgãos estaduais estratégicos para conduzir a gestão e cumprir os seus objetivos; e conta com uma oposição ainda desarticulada (mas que começa a organizar-se em função dos erros do governo);
10. Produtor de crises: O governo é confuso e inconstante em suas relações políticas e embaralha os espaços de decisões governamentais e partidárias.
Ora ameaça romper a aliança que lhe assegurou a vitória eleitoral, ora reconcilia-se e faz juras de amor; ora insinua que vai romper com PMDB, supostamente para afirmar que o governo é de esquerda, ora convida PV (Zé Carlos e Gabriel Guerreiro) e PP (Gerson Peres) para participarem do governo; ora incrementa a participação do Diário do Pará nas contas de publicidade oficial, ora tenta selar acordos com os donos de O Liberal, em encontros tão secretos quanto o encontro do jogador Ronaldo com travestis, no Rio; ora declara apoio à reeleição de Helder, em Ananindeua, ora corteja Pioneiro; ora faz movimentos em favor da indicação de Anivaldo a vice de Duciomar, ora investe para que este aceite Raul Meireles como vice; ora afirma-se intransigentemente de esquerda, ora convida Zeca Pirão para ser o vice de Mário Cardoso, já no primeiro turno.
A lista é tão extensa quanto é patente a vocação do núcleo dirigente do governo para produzir crises.


O QUE FALTA?

1. Falta humildade para reconhecer os próprios erros;
2. Falta sabedoria e paciência para reconhecer que o PT não tem hegemonia na sociedade e que a luta por uma nova hegemonia é necessária e legítima, mas é também de longo curso;
3. Falta sabedoria e acuidade para interpretar o momento histórico e para não desperdiçar essa oportunidade, pois poderemos não ter outra tão brevemente;
4. Falta altivez para assumir as suas contradições e para, apesar delas, seguir em frente;
5. Falta capacidade para construir unidade política;
6. Falta capacidade para distinguir o que é central e estratégico daquilo que é periférico e conjuntural;
7. Falta desprendimento e coragem para tomar as decisões que estão “engavetadas”, que são várias. Ressalto pelo menos uma: se a governadora e o seu círculo mais íntimo de governo estão convencidos de que a aliança com o PMDB não serve ao governo, então que seja coerente e rompa a aliança, assumindo, por óbvio, as conseqüências políticas de tal decisão. (clique aqui para saber o que escrevi sobre a política de alianças do governo)
Essa postura dúbia e hesitante do governo produz situações extravagantes, como é o caso da secretária de saúde, que tem menos influência no governo sobre os assuntos de sua pasta do que alguns de seus auxiliares naquele órgão estadual.
Se o núcleo dirigente do governo entende que a SESPA não deve ser comandada por uma pessoa indicada pelo PMDB - como até as pedras sabem - então que se enfrente a repactuação do governo, ao invés do método – fugidio e burro - da fritura e do esvaziamento, que penaliza ainda mais a população que precisa da saúde pública para manter-se sã ou pelo menos viva.


DEFINITIVAMENTE,

O governo de Ana Júlia não é uma tese, um experimento;
Não é um clube de ciência;
Não é meio para enriquecer uns e conferir prestígio a outros;
O governo de Ana Júlia veio para mudar e só faz sentido se puder operar essas mudanças.


MAIS E MENOS

Mais governo e menos intriga!
Mais governo e menos fofoca!
Mais governo e menos fantasmas!

Enquanto há tempo...

18 comentários:

Afonso disse...

Prezado Charles,

É impressionante a sua capacidade de analisar o Governo Ana Júlia, isso, por si só, demonstra o erro crasso (da Ana) que foi sua saída da Casa Civil. Objetivamente, o grande problema atual do Governo Ana Júlia é ter entre seus principais dirigentes, muitas pessoas que nunca foram atrás de votos, às duas horas da tarde com sol escaldante em qualquer eleição. Portanto, eles não sabem a importância que esse Governo tem de dar certo (não dão o devido valor). Como você disse, eles tratam a governança como uma Tese e estão completamente errados. Ou a Ana conserta isso logo, ou...

Anônimo disse...

Charles, e o partido, qual é o seu papel nesse contexto? Será que os caciques acham que a derrota do nosso governo não é a derrota do projeto politico do PT no estado?

Anônimo disse...

Caro Sr Charles. Sua análise é bastante lúcida, porém esquece, e é comum neste governo, desprezar aqueles que carregam nas costas os governos de qualquer cor, os servidores públicos de carreira. Este distanciamento recheado de arrogância e auto-suficiência é mais sentido por aqueles servidores realmente concursados, que estão entrando no Estado desde 2004. A grande maioria de excelentes profissionais, que após anos de estudo passam no concurso, tomam pose e são obrigados a serem gerenciados e coordenados por DASs totalmente despreparados moralmente(vide caso SEAD) e tecnicamente para as funções. Nós não votamos na Ana Júlia para isto.

Anônimo disse...

Ora, ora... Charles, passa outra hora.

Anônimo disse...

O grande Charles, o daqui, só esqueceu no seu ora ora, da Valéria, do Dem e do Vic.
Não necessariamente nessa ordem.

Anônimo disse...

Charles, sua analise refleta a mais pura e franca realidade do mundo de fantasia que vive o governo petista.Talvez ,aliás o partido que sempre pregou a honestidade e lealdade como povo, deu,dá e sempre será assim uma demonstração de despreparo e fragilidade, devido sua saga pelo poder $$$$$$$$$$$.A história está bem perto, mensalão, cuecão e etc...mas voltando aqui a terra papa xibé, terra de direito: que direito, professor apanhando,reajuste salarial famigerado , charles o que fazer, companheiro, se o que vale é a DS, o resto..............2010, será?

Parsifal Pontes disse...

Olá Charles,

A sua análise é pertinente e lúcida. Dever-se-ia constituir em uma peça de avaliação ao governo, na medida em que você tem propriedade para elabora-la: viveu a administração por dentro, e assistiu o quadro em gestação, e agora enxerga-o por fora, sem a presbiopia que, usualmente, acomete os inquilinos.

Obrigado pelo link a minha página. Retribui com o seu blog entre os meus links.

Um abraço.

Parsifal Pontes

Anônimo disse...

Prezado Charles,

Palavras lúcidas, porém, sem credibilidade. Teve, vc, a oportunidade enquanto CHEFE da Casa Civil, de ser e fazer diferente dos que estão lá, hoje. Por que não nos conta, para dá um pouco de credibilidade as suas palavras, o verdadeiro motivo da sua exoneração? Com certeza não deve ter sido por mero conflito político...ou mera disputa de poder. A Governadora pode ser rotulada de MARIA VAI COM AS OUTRAS... mas, jamais, de BURRA.

Luana disse...

Oi Charles, em primeiro lugar parabéns pelo blog e pelo compromisso de fazer análises políticas que nos remetem a avaliar o governo. Congrego no ítem "mais e menos" e definitivamente precisamos de muito mais governo, muito mais trabalho, muito mais compromisso, muito mais ousadia, muito mais coragem, muito mais tantas coisas que sonhamos...chega de intriga e fofoca, o governo precisa é arregaçar as mangas e trabalhar!

blog do bacana-marcelo marques disse...

É Charles, como eu disse, em blog pimenta é fundamental...

Anônimo disse...

Charles, o daqui, canta:
- me chama, me chama...

Charles Alcantara, disse...

Caro Anônimo das 23:13,
Sabia, quando lancei este blog, que enfrentaria esse tipo de julgamento, mas seguirei em frente.
Peço que leias a postagem intitulada "VETO, HONRA E 'PONTAPÉS', publicada no dia 21 de julho.
Lá reporto-me à minha saída, embora este tema não seja relevante. Mas ressalto, meu caro, que não vou fazer deste blog um diário de confidências.
Apenas quero destacar que as opiniões que publico neste espaço não são diferentes das que eu defendia quando estava no governo.
A diferença reside no fato de que agora as opiniões assumem um caráter público.
Agradeço o seu comentário.

Anônimo disse...

Hahahahaha...tudo verdade Charles. Lembro uma vez que o atual coordenador do PRO-CANTO, disse, por ocasião de o governo ter atendido uma percaeria com o MST, que "AGORA" o governo ana júlia tinha "VIRADO" de esquerda finalmente.

Anônimo disse...

Charles, sou da área da saúde, servidora federal e estadual. Lamento o desmonte,o descaso, a incompetência do PT em nossa área.

Sofremos perseguições, desrespeito e maus-tratos.

Dá forma como vcs se comem nas reuniões internas do PT, nos comem nos hospitais e nas secretarias...

O PT não precisa de inimigos externos... Os inimigos Íntimos(as tendências e sub-tendências)dão conta do recado e não deixam pra ninguém!

Tenho vergonha de ter votado em Ana Júlia, no PT.

Não vejo a hora de meu pesadelo e de centenas de companheiros acabar.

Puty nem merece comentário, é só ler o jornalista Barata.

Paulo de Tarso de Oliveira deve ser a vergonha da UFPA( o primeiro deve ser Puty). Na nossa Sespa um arrogante, egocêntrico e narcisista. Está sozinho para uma intriga. Perseguidor de funcionário concursado. Usa a máquina pública com se fosse...a GOVERNADORA!!!

Charles, como o PT poderia se levantar das cinzas e dizer pro que veio, no governo estadual?

E, como vcs trabalham /educam??figuras como as duas a cima?

Anônimo disse...

Interessante essa sua postagem. Vc fez um Raio X do governo. Uma análise clara e verdadeira e naquele tópico "mais ou menos ... menos fantasmas", veja a situação da SEAD: muitos dos apaniguados do ex-senador Ademir Andrade, preso pela PF na Operacão Galiléia por corrupcão, não vão trabalhar mas recebem normalmente no fim do mes já que o Secretário Orlando Bordallo, seguindo as ordens do Ademir, manda pagar. Tem DAS que passa mais de mes sem mostrar a cara na Secretaria mas recebe seu salário integralmente. QUE VERGONHA, ANA JÚLIA.

Charles Alcantara, disse...

Prezado Anônimo das 20:04,
Os fantasmas a que me referi no texto não são da mesma espécie citada por você.
Referi-me ao comportamento assustado ou assombrado, típico de quem se comporta como se estivesse permanentemente sendo traído, perseguido.
Mas está feito o seu registro.

Anônimo disse...

Eu entendi perfeitamente "os fantasnmas" a que vc se referiu. Só quiz mostar que existem muitos outros fantasmas e a SEAD está cheio deles. A Governadora tem conhecimento da situação mas por recomendação do Puty, resolveu deixar coo está porque é o tutor do Ademir Andrade.Como contribuinte e servidor público estadual efetivo fico muto apreensivo com o muito que possa ter além disso neste Governo.

Anônimo disse...

Caro Charles,
Não concordo com você quando fala dos fantamas, dos assombrados ou assustados que eventualmente existitiam neste governo.
Bem ao contrário, alguns somente fingem assombro, uma vez que todos eles, no íntimo, não temem a nada, a ninguém: todos rezam a Santos fortes. Santos semi-deus (ou semi- deusa??) que tem o dom da onipresença, onisciência...Na verdade, não há qualquer esperança para quem não reza a mesma oração. Pobre do Estado do Pará que vem sofrendo uma sangria amadora e desenfreada que nem o hospital de Santarém e os técnicos da SESPA conseguiriam contêr.